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MONOGRAFIAS

Correio D'Oeste, A Verdade e Diário do Oeste
Jornalismo político-partidário em
Cascavel (PR) na década de 50
Por Claudia Jawsnicker*

Resumo

Este estudo se propõe a analisar a gênese do jornalismo impresso em Cascavel - cidade localizada no interior do Paraná, a cerca de 500 km da capital do Estado. Emancipado em 1954, o município ficou conhecido nacionalmente nos anos 50 como um dos mais violentos do Brasil, apresentando distúrbios típicos da fronteira.

Difíceis de serem coibidos numa região em que ainda não existia lei e ordem, os conflitos pela posse da terra se espalhavam pela cidade, mas não afastavam os migrantes, que atraídos pelo solo fértil, chegavam em grupos: caboclos e também descendentes de poloneses, ucranianos, alemães e italianos, vindos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

A partir deste contexto histórico-social, esta investigação acompanha o nascimento, na década de 50, e a trajetória dos primeiros jornais na cidade (O Correio D'Oeste, A Verdade e O Diário do Oeste), resgatando a sua história e contribuindo para a preservação da memória midiática impressa de Cascavel.

Reprodução

Palavras-chave: memória - jornais - Cascavel - década de 50

Introdução

A luta pela terra marcou o nascimento do município de Cascavel, cidade localizada a cerca de 500 quilômetros da capital do Estado. "Cascavel era o reino da anarquia", explica o historiador Vander Piaia, referindo-se às brigas entre posseiros, grileiros e pistoleiros pela posse da terra nos anos 40. [1]

Diferentemente da colonização de cidades vizinhas, como Toledo, que aconteceu a partir da distribuição organizada de terras pela empresa colonizadora Maripá, [2] em Cascavel o processo foi desordenado.

Como não havia restrições ou controle das ocupações, os colonos, atraídos pela conquista de terras devolutas chegavam, cercavam os terrenos, faziam uma plantação e, com o tempo, consolidavam a posse. As regras da civilidade durante a época de colonização da fronteira eram inexistentes pela falta de presença do Estado. "A sociedade estava em fase de organização, as estruturas sociais eram frágeis, o que permitia que cada um que chegasse quisesse impor a sua visão de mundo", explica Piaia. [3]

Os primeiros colonos chegaram à região a partir do final da década de 20 e estabeleceram pequenas propriedades agrícolas e prestadoras de serviço, introduzindo os ofícios de carpintaria, marcenaria, serraria e sapataria na área.

Segundo dados da Prefeitura, fluxos migratórios de diferentes frentes compuseram a população de Cascavel: os caboclos (que vieram de Guarapuava para vários pontos do Oeste do Paraná), pessoas com tradição de plantio de café (oriundas do Norte do Estado) e, principalmente, os descendentes de poloneses, ucranianos, alemães e italianos, vindos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. "Abriam-se os caminhos do oeste paranaense para os gaúchos. [...] Avançava o projeto de italianização de Cascavel", explica o jornalista Alceu Sperança. [4]

Os migrantes iniciaram a agricultura de erva-mate, a exploração de suínos e, mais tarde, a exploração da madeira. Para Piaia, o Oeste do Paraná foi a fronteira final a ser ocupada no processo migratório do sul do país, "a última grande etapa do avanço da expansão humana no sul". [5]

Esta ocupação acompanhou a tendência migratória em toda a região, a partir da década de 1940. Atraídos pelas terras fáceis e solo fértil, os migrantes chegavam em grupos, formados por familiares, amigos e vizinhos, também trabalhadores agrícolas, que adquiriam lotes numa mesma área.

A eles, juntavam-se os tropeiros, tradicionais desbravadores, que além de possuir habilidade em lidar com boiadas, levavam mercadorias de primeira necessidade para as localidades mais isoladas. Cascavel crescia; em 1946 já contava com um grupo escolar, delegacia de polícia, armazéns e capelas. O censo demográfico de 1950 revela que a cidade possuía, na época, 404 habitantes. [6]

Emancipado em 14 de dezembro de 1952, o município ficou conhecido nacionalmente nos anos 50 como um dos mais violentos do Brasil - apresentando distúrbios típicos da fronteira, como os que acontecem atualmente em Rondônia ou no Pará. Difíceis de serem coibidos numa terra em que ainda não existia lei e ordem, os conflitos se espalhavam pela cidade.

Moradores pioneiros lembram que era comum avistar jagunços andando tranquilamente pela Avenida Brasil, a principal da cidade, "com revólveres na cinta, como se aqui fosse o Velho Oeste americano", [7] como conta Cleide Antunes, 56 anos.

Ela presenciou, em plena Avenida Brasil, o assassinato de um deles, envolvido numa briga com um outro pistoleiro. "Ele tirou uma faca da cintura e acertou o coração do outro, que caiu morto na hora". A situação de Cascavel era tão crítica que os juízes relutavam em assumir a Comarca ou não paravam muito no posto. O livro "50 anos de história", publicado em 2000, pela Prefeitura, oferece a dimensão da dificuldade:

Em 1953, o juiz inicialmente designado, Inácio Pinto de Macedo, não quis saber de vir para Cascavel, e o juiz Aurélio Feijó, que afinal concordou em assumir, ficou no cargo por menos de um mês". [8]

Mas, apesar da violência, o município alcançou um crescimento populacional surpreendente nesta época. "Isso é, na verdade, um paradoxo. Teoricamente, as pessoas não querem se estabelecer numa cidade violenta", avalia Piaia. O desafio de vencer numa terra de oportunidades falava mais alto ao coração de muitos migrantes e Cascavel já apresentava, em 55, um estável crescimento populacional e significativo número de empreendimentos comerciais.

Um levantamento feito pela Prefeitura sobre as indústrias em atividade no município revelou, na época, a existência de 43 estabelecimentos registrados oficialmente. [9]

Assim como no restante do Estado, a história antiga de Cascavel pode ser contada através dos vários ciclos econômicos: inicialmente os pioneiros se dedicaram ao plantio da erva mate - esteio da economia paranaense por um longo período. Cultura perene e que requisitava poucos cuidados, era desenvolvida a partir do extrativismo.

Em seguida, estabeleceu-se o ciclo da madeira. Das serrarias, estabelecimentos que contavam com uma série de profissionais, entre eles eletricistas, mecânicos, tratoristas e motoristas de caminhão, saía a madeira a ser transportada para Foz do Iguaçu (e que de lá era exportada para a Argentina) e outros estados do país.

Em torno destas serrarias formava-se uma vila, com cerca de 200 famílias - todas vivendo e trabalhando em função da indústria madeireira. "Muita madeira daqui foi utilizada na construção de Brasília, na década de 60", lembra Dona Aurora, cujo marido trabalhou como motorista de caminhão durante 12 anos na Serraria Santa Rosa. A indústria da madeira foi propulsora do crescimento populacional em Cascavel. A partir de 1950, a população crescia cerca de 80% ao ano.

É neste contexto social e econômico que vai nascer a história da imprensa da cidade, com o lançamento do jornal Correio D'Oeste, em 6 de maio de 1953.

O Correio D'Oeste

O jornalismo impresso de Cascavel nasce pelas mãos de um anarquista. Aos 14 anos, rebelde e indisciplinado, Celso Formighieri Sperança incendeia o colégio onde estuda em Caçador, sua cidade natal, no interior de Santa Catarina.

De castigo, é enviado pelo pai, o prefeito da cidade e comerciante Carlos Sperança, para estudar em Curitiba. Era 1942, época de exílio para o jovem rapaz. Sem conhecer ninguém na capital paranaense e preso a um colégio interno, planeja sua vingança: torna-se em pouco tempo persona non grata também na escola.

A direção comunica aos seus pais sua expulsão da instituição. Com 15 anos, e brigado com os pais, decide permanecer em Curitiba. Consegue um emprego no laboratório farmacêutico Raul Leite e, mais tarde, uma vaga como escrivão policial. Responsável pelos boletins divulgados à imprensa, atrai a atenção dos repórteres locais por seu texto preciso, claro e detalhado.

Em pouco tempo o Estado do Paraná oferece a ele sua primeira oportunidade de trabalhar como repórter no jornal. Aceita a proposta, Sperança inicia sua experiência jornalística produzindo matérias sobre polícia, economia e política. Em maio de 1950 casa-se com Nilce Leite, com quem teve três filhos: Alceu, Carlos e Regina.

Intelectual, envolvido com movimentos políticos e de vanguarda, Sperança recebe, dois anos mais tarde, uma intimação de seu pai, com quem ainda estava brigado: deveria ajudar o primo, José Neves Formighieri, recém-eleito primeiro prefeito de Cascavel, na administração da cidade. Disposto a uma reconciliação definitiva com os pais, aceita a proposta. Mas como Cascavel é conhecida como terra de pistoleiro e violência, decide não trazer, inicialmente, a mulher e os filhos.

Ao chegar à cidade, em 1953, vai trabalhar com o primo que é prefeito, assumindo a função de Secretário Geral do Paço Municipal. Envolve-se logo com a política local e funda o Partido Social Democrático (PSD), procurando atrair as lideranças mais importantes da cidade para o seu partido. Na época, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de Getúlio Vargas, e o Partido Republicano (PR), do governador Bento Munhoz da Rocha Neto, eram os partidos majoritários em Cascavel. As atividades políticas de Sperança desagradam os simpatizantes do PR, que pressionam o prefeito para demiti-lo - o que acaba acontecendo.

Mesmo desempregado, Sperança decide permanecer em Cascavel para concretizar um sonho: montar um jornal que oferecesse sustentação política ao PSD na cidade. Em Curitiba, consegue parte do equipamento para montar o periódico com o governador Moyses Lupion (PSD).

O governador Lupion, homem de imensa fortuna com negócios nas áreas de comércio, indústria e agricultura, era também proprietário de jornais - tinha participação no O Dia e na Gazeta do Povo. Outra parte do maquinário, Sperança consegue em Guarapuava, com o deputado Antônio Lustosa de Oliveira, que lhe cedeu alguns equipamentos antigos que dispunha no jornal Folha do Oeste, de Guarapuava, de sua propriedade. Era "uma impressora histórica, uma prensa minúscula, mas que deu conta do recado", [10] e que chega à cidade em lombo de burro.

Nasce, assim, o primeiro jornal da cidade: o Correio D'Oeste, cujo primeiro número é publicado em 6 de maio de 1953. No expediente, Celso Sperança aparece como diretor responsável e Lyrio Bertoli como redator. "Mas quem fazia o trabalho jornalístico mesmo era o Celso. Minha tarefa era apenas a correção ortográfica e gramatical dos textos", explica Bertoli. [11]

Com o lema Jornal independente a serviço do oeste paranaense, estampado logo abaixo do logotipo do jornal, O Correio D'Oeste recebia verbas da Prefeitura e apresentava oito páginas. Numa casinha de madeira na Avenida Brasil ficavam a redação e a oficina do periódico. "Acompanhei, várias vezes, as máquinas rodarem e o jornal ser impresso. Aguardava ansioso e apanhava um exemplar fresquinho.

Era uma novidade na área de comunicação na cidade, que não contava nem com telefone nem rádio - apenas um serviço de auto falante instalado em cinco postes da cidade ", lembra o ex-vereador Dércio Galafassi, morador de Cascavel desde a década de 50. [12]

O jornal, que se apresentava como um jornal de 'Cascavel do Sul' - como ainda era conhecida a cidade -, publicava, essencialmente, matérias sobre a movimentação política do município: textos integrais de leis aprovadas pela Câmara, atos do poder executivo municipal, entrevistas com vereadores e deputados e, é claro, notícias curtas sobre as atividades e viagens dos filiados do PSD, como o presidente do partido na cidade ou os candidatos da legenda a cargos públicos.

Anúncios do comitê de propagando do PSD - "A 3 de outubro o povo votará confiante em Moises Lupion para governador" - recheavam as páginas, e as colunas (não assinadas) Comentando e Carroussel Político opinavam sobre a política local, repassavam rumores - "dizem por aí, mas eu não afirmo, que o sr. Guaraná Menezes [...] espera-se eleger-se deputado federal a três de outubro" - e reivindicavam à Prefeitura melhorias como aberturas de estradas ou reformas no aeroporto.

Em artigos, personalidades locais - como médicos e empresários - dissertavam sobre assuntos variados, como saúde e habitação. A coluna assinada por J. Urutu de Souza, pseudônimo do próprio Celso Sperança, era popular pelo estilo irônico e pelas alfinetadas - diretas ou indiretas - na elite local:

A cidade vive infestada de felizes tesouras que falam por falar, numa generalizada falta de profundidade no que dizem, (me perdoem!!!) do que repetem por ouvirem dizer... Não sei se o nome da cidade influi no ânimo e no espírito das tesouras, mas o fato é que venenos pupulam pela praça, numa demonstração inequívoca de que a sinceridade anda oculta, e esbaforida, encolhida pelo número astronômico de boatos, de artimanhas invencionais e de intrigas que circulam por todos os pontos cardeais da sede do município. [13]

Muitas vezes, as alfinetadas - que tinham endereço certo - não agradavam. "

Era uma época em que o "direito de resposta" de quem se sentia ofendido não se garantia com educados e-mails e advogados, mas no cano do revólver", [14] revelam os irmãos jornalistas Alceu e Carlos Sperança, filhos de Celso.
Numa cidade habitada por colonos, muitos dos quais sequer alfabetizados, quem seria o público-alvo do jornal?

A maioria dos exemplares do Correio D'Oeste não era distribuído na cidade - o jornal era produzido para ser lido pelas autoridades políticas de Curitiba, pelos membros da Assembléia Legislativa, políticos do Rio de Janeiro (ainda capital do país) e Prefeitos do Estado. Iniciando uma tradição dos jornais cascavelenses, o Correio D'Oeste não nasceu da necessidade da comunidade, e sim fruto de um objetivo eleitoreiro partidário específico.

O jornal era porta-voz do programa e da plataforma político-partidária do PSD. Mas sem assinantes e patrocinadores regulares, contando apenas com alguns pequenos anunciantes (uma média de um a cada edição), o jornal - que apresentava periodicidade e tiragem extremamente irregular - enfrenta dificuldades. Já na segunda edição, numa nota, na primeira página, a direção do jornal pede desculpas aos leitores pelo atraso na distribuição do jornal, que deveria ser semanal.

Em face a dificuldades diversas, a segunda edição do nosso jornal saiu com sensível atraso. Todavia a sua nova apresentação gráfica, a melhoria sensível das matérias, a sua ilustração farta compensou [sic] a demora verificada. Com tais dificuldades afastadas esperamos entregar as edições seguintes com a desejada regularidade. [15]

Após 13 edições, a verba da Prefeitura foi cortada, fazendo com que O Correio D'Oeste tivesse vida curta. Em 1956, Celso Sperança vende o jornal a empresários de Foz do Iguaçu.

A Verdade

Sem desanimar com as dificuldades enfrentadas durante o seu primeiro empreendimento jornalístico, Celso Sperança resolver tentar nova empreitada. Ainda em 1956, adquire em Ibiporã uma tipografia moderna, que é instalada na rua das Palmeiras (atual rua Souza Naves).

Além de se dedicar a imprimir folhetos de igreja, cartazes e formulários, decide montar o segundo jornal de Cascavel, cujo número 1 é lançado em maio do mesmo ano. A publicação é batizada de A Verdade, nome inspirado nos versos do poeta espanhol Lope de Veja: "A verdade nada se envergonha senão de estar oculta." [16]

O jornal - assim como o seu predecessor - tem uma característica essencialmente eleitoreira: ajudar o PSD na campanha de 1956 à Prefeitura.

No entanto, A Verdade conta com um diferencial importante. As escolas municipais, construídas durante a administração do Prefeito Formighiere, estavam formando cada vez mais leitores na cidade. Numa época em que não existiam emissoras de rádio ou TV, o jornal e o sermão do padre aos domingos eram praticamente as únicas formas de informação.

A Verdade, então, ao contrário do Correio D'Oeste, era distribuído essencialmente em Cascavel, de casa em casa e, principalmente, nas serrarias, pelos cabos eleitorais do PSD. "Onde houvesse um possível leitor ou estudante, o jornal era distribuído", explica Alceu Sperança. [17] Os leitores eram eleitores em potencial do partido.

O jornal tinha mais leitores que o seu antecessor, mas não contava com muitos anunciantes: as empresas da região ainda não demonstravam interesse em divulgar seus serviços em um jornal. "Não havia o conhecimento da força da publicidade", avalia Alceu. [18]

Ou seja: A Verdade dependia da generosidade do partido em financiar sua produção. Quando o PSD ganhou a eleição para a Prefeitura de Cascavel, em 1956, o novo prefeito, Helberto Schwarz entendeu que o jornal já tinha cumprido o seu papel e decidiu que não iria mais financiar um jornal que não tinha leitor nem anunciante.

Diante da dificuldade, Celso Sperança fecha o jornal em novembro de 1956, vende a gráfica e volta a trabalhar para a Prefeitura, organizando a contabilidade do município. Mais tarde, assume a programação da rádio Colméia, primeira emissora radiofônica da cidade, criada em 1958. Era o fim de A Verdade.

O Diário do Oeste

No final de 1962, o médico Wilson Joffre encontra-se numa situação complicada. Ambicionando ser candidato à Prefeitura de Cascavel pelo PTB, Joffre tentava montar um jornal, pois acreditava que o veículo seria fundamental para dar sustentação à sua campanha. Natural de Curitiba, o médico chegara a Cascavel em 1951 para exercer a Medicina.

Com idéias progressistas, logo mobilizou a comunidade em favor de seu primeiro grande projeto: a construção de um hospital. Lançou a proposta de financiar a obra por um sistema de ações. A idéia foi um sucesso e o Hospital Nossa Senhora Aparecida foi construído e inaugurado em 1952.

No mesmo ano, empenha-se pela construção do novo aeroporto, inaugurado no ano seguinte. Em 1956, aventura-se como candidato à Prefeitura. Apesar de favorito, é derrotado pelo vereador Helberto Schwarz. Apesar do fracasso eleitoral, Joffre continuava a alimentar aspirações políticas.

Decidido, então, a montar um jornal, investe na compra de equipamentos e contrata gente de Curitiba para dar conta do trabalho. Mas, o resultado não sai de acordo com seus planos. As matérias não haviam chegado e o médico se angustiava com a proximidade do dia do lançamento do jornal. Autoridades como o governador Ney Braga e o ministro do Trabalho Amaury de Oliveira e Silva haviam sido convidadas a vir a Cascavel para a ocasião. Assustado, o médico recorre a Celso Sperança.

E, assim, Sperança inicia a tarefa de produzir mais um jornal na cidade, com a colaboração de Eli do Espírito Santo, Luiz Antônio de Guiné e Agenor Pacheco, entre outros. Em 11 de novembro de 1962, antes do prazo final da aposta, Sperança e Joffre lançam o Diário do Oeste. Como previsto, a festa de inauguração do jornal é prestigiada pela elite política local, da região e do Estado.

Entre os convidados, o governador Ney Braga, o prefeito de Cascavel, Octacílio Mion, deputados, senadores e vereadores, além de empresários. Joffre é o proprietário e diretor da publicação e Sperança atua como redator-chefe. "Todos comemoraram, mas eu já tinha estourado de tanto trabalho", explicaria mais tarde, em entrevista, Celso Sperança ao seu filho Alceu. [19]

Contando com uma gráfica própria, o jornal trouxe uma certa modernidade à incipiente imprensa da cidade: era impresso em duas cores. "O linotipo foi o primeiro a chegar em Cascavel, procedente da capital", lembraria Eli do Espírito Santo, [20] diretor gráfico do jornal. Na página 2 da primeira edição, Wilson Joffre assina um artigo no qual afirmava que o jornal lutaria para que Cascavel não fosse mais apontada "como um núcleo de jagunços e aventureiros" e apresentava os 'objetivos' do jornal:

A nossa crítica será sempre construtiva. Estaremos sempre ao lado dos bons. Combateremos os maus. Os ternos derrotistas e políticos de ocasião não terão vez em nossas páginas. Aceitaremos sugestões e conselhos de homens prudentes, e que estejam ligados a qualquer setor de atividade desta imensa zona oeste paranaense. Seremos os arautos de todas as reivindicações justas da coletividade. Prestigiaremos o governo estadual, federal e municipal contanto que esses governos atendam as justas reivindicações do povo. [21]

Na capa, logo abaixo do logotipo do jornal - em verde - lia-se o lema da publicação: "Um jornal a serviço do município, estado e do Brasil". Em formato avantajado - 36,5 cm por 54 cm -, o jornal apresentava oito páginas.

No primeiro número, trazia, na capa, diversas notas curtas sobre assuntos regionais - como a visita do senador Juscelino Kubitschek a Londrina, a posse do líder do PSD paranaense na Câmara Federal, a internação hospitalar do ex-presidente da República Café Filho -, outras internacionais, como o rompimento das relações diplomáticas entre o Vietnã do Sul com Laos, e uma notícia 'espetacular': uma menina de 10 anos havia dado à luz em Chicago (o título anunciava: "Fenômeno: menina mãe").

Textos curtos sobre assuntos locais espalhavam-se ao longo das outras páginas: a primeira edição apresenta notícias sobre as atividades das lideranças políticas e do clube Lions de Cascavel. O jornal também abordava assuntos mais leves, de entretenimento, como turismo no Paraná, e contava com uma seção de horóscopo e a programação do cinema Delfim.

Na página 2, a coluna Álbum Social, que divulgava eventos como batizados, aniversários, casamentos, convidava o leitor a contribuir com notas sobre o 'calendário social' da cidade. "Este jornal divulgará com o máximo prazer e solicitude acontecimentos sociais e familiares de Cascavel e região". Com o passar do tempo, a coluna acrescentaria outras bossas, como sonetos, poesias e "gotas filosóficas".

É no Diário do Oeste que começa a desabrochar o talento de Frederico Sefrin Filho, que viria a ser um dos mais importantes jornalistas da cidade, mentor de uma geração de repórteres. Paulista criado no Rio Grande do Sul, Sefrin conhecera Sperança na Rádio Colméia, onde trabalhava como radialista.

Confiando no talento do jovem de 21 anos, Sperança convida Sefrin a assumir o cargo de 'redator secretário' no Diário, título imponente, mas que, na prática, resumia-se a um faz-tudo: Sefrin trabalhava da reportagem à edição.

Ele era ainda responsável pela seção Esportes em Revista, que ocupava toda a página 7 e apresentava matérias, pro exemplo, sobre a nova liga cascavelense de basquetebol - uma novidade na cidade - e os times de futebol da cidade. Em coluna assinada, o jornalista afirma, na edição número 1, que o compromisso 'sagrado e inviolável' do jornal seria "levantar os véus de mistério que esmaecem as contundências do fato". [22]

Em dezembro de 1962, sentindo-se assoberbado com o acúmulo de trabalho simultâneo no Diário e na Rádio Colméia, Sperança desliga-se do jornal. "Foi saindo o primeiro, o segundo, o terceiro, o número 4 [do jornal], mas eu já não agüentava". [23] Sefrin assume a chefia de uma redação de cerca de 17 pessoas. E, aos poucos, o Correio D'Oeste vai passando por algumas reformulações.

A coluna Telegramas dos Estados, na primeira página, resume notícias que as várias Prefeituras do Estado e país enviavam ao jornal e a Rumor...zinhos, apresentava notinhas sobre os bastidores da política local e regional. . O espaço Síntese mundial registrava, também de maneira breve, notícias da Europa, Estados Unidos e Ásia.

O mundo é da mulher, assinada pela dupla Sirlei e Maria América (esta última mulher de Sefrin), trazia dicas para mães e donas de casa sobre receitas culinárias, cuidados com bebês e como fazer embrulhos bonitos para presentes de Natal. Correspondentes das cidades de Céu Azul e Foz do Iguaçu enviavam notícias destas cidades.

O jornal se engaja em campanhas de cunho político, quando, por exemplo, a partir de dezembro de 1963, conclama seus leitores a dizer não no plebiscito que decidiria sobre a aprovação do Ato Adicional que criara o parlamentarismo no país. E, aos poucos, vai conquistando alguns anunciantes - como madeireiras, relojoarias, lojas de ferragens, bares e confeitarias -, que divulgavam serviços e produtos em suas páginas. Mas a publicidade e os cerca de 200 assinantes não eram suficientes para financiar o jornal, que sobrevive graças aos investimentos do próprio dono.

Com a saída de Sefrin, em 1962, que decide voltar a trabalhar na Rádio Colméia, o jornal perde seu comandante. Como o Diário enfrentava problemas financeiros, Wilson Joffre decide vender parte do maquinário do jornal para reduzir estrutura e custos. Sem uma direção, o jornal deixa de ser produzido durante três meses.

Joffre convida, então, em 1963, o jovem gráfico Elcir João Carlos Neis, de 21 anos, para dirigir as oficinas da publicação e retomar a sua circulação. Gaúcho, Neis era dono de uma pequena gráfica em Medianeira e tinha tido contato com o jornalismo desde cedo. "Eu fui criado dentro de uma gráfica.

Aos sete anos, já trabalhava em uma tipografia. Depois, aos 18 anos, fui free-lancer de um jornal em Caxias do Sul". [24]

Com essa experiência, Neis assume a gerência do jornal, o que na prática, aprenderia ele, significava trabalhar na reportagem, edição e gráfica. Profissional sério, ele percebe que, como responsável pelo jornal, teria que sanar enormes dificuldades. "O jornal não estava no vermelho, já era roxo de tanta dívida". Além disso, muitos funcionários não desempenhavam suas funções adequadamente. Em poucas semanas, ele dispensa nove funcionários e inicia o processo de organização do jornal. O primeiro passo é diminuir o formato do jornal para 33 cm por 48 cm.

Em seguida faz uma proposta ao médico: o jornal deveria transformar-se em semanário para cortar despesas. Proposta aceita, Neis faz visitas a vários comerciantes locais para convencê-los a anunciarem na publicação. Mas "a maioria torcia o nariz. Diziam que não precisavam de anúncios". Neis tem uma idéia para aumentar a venda do jornal: faz acordo com as prefeituras da região e o jornal torna-se diário oficial de municípios como Cascavel, Foz do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, entre outros.

A idéia dá excelente resultados: ao final de 30 dias o Diário D'Oeste já apresentava um faturamento 12 vezes maior que o faturamento médio do ano anterior. O médico proprietário da publicação fica encantado com o tino comercial de Neis, que passa a receber uma comissão sobre as vendas do jornal.

Em dezembro de 1966 morre o proprietário do jornal, Wilson Joffre. Neis assume ainda mais funções dentro do jornal: passa a ser responsável pela produção dos editoriais. Mas os constantes desentendimentos com a viúva do médico acabam por fazer com que ele decida deixar o jornal em 1969 e abrir um negócio próprio. Com sua saída, O Diário D'Oeste deixa de circular.

Considerações finais

Um dos papéis da mídia é o do registro dos acontecimentos que marcam o rumo da nossa história. Mas também, como nos lembra Dines, [25] trata-se de um centro de memória sobre pessoas, costumes, cultura. A memória, complementa Le Goff, [26] "é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia". Através da memória nos definimos como pessoas, cidadãos e cultura.

Pela memória, o passado não só vem à tona das águas presentes, misturando com as percepções imediatas, como também empurra "descola" estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência. A memória aparece como força subjetiva ao mesmo tempo profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora. Bosi 2003, p. 36 [27]

Este estudo - que faz parte uma investigação maior, embrião de um livro, compreendendo a trajetória de todos os jornais impressos de Cascavel - tem por objetivo auxiliar na preservação da mídia impressa do município, através do resgate da história dos primeiros jornais da cidade, desde o lançamento do primeiro periódico, a Gazeta D'Oeste, em 1952.

A análise contempla a influência do contexto histórico-social da época no estabelecimento de condições que favoreceram o lançamento dos jornais analisados e identifica o caráter político-partidário destas primeiras publicações. Com peridiocidade e tiragem irregular e sem contar com verbas publicitárias que os financiassem, estes veículos sobreviveram enquanto existia o ideal de formação política.

Assim como ocorreu em outras cidades do Paraná - por exemplo, em Londrina, Maringá e Ponta Grossa -, "muitos grupos criavam jornais para expressar suas idéias, vender elogios à cidade, potencializar a cultura ou criticar o poder vigente através das páginas impressas". [28]

E, assim que terminava o apoio político ou o momento do interesse, o jornal desaparecia. Vale ressaltar, também, que a intenção de obter lucros econômicos através desses jornais estava relegada a um segundo plano; a atividade jornalística era, com freqüência, deficitária, confirmando Habermas. [29]

Esta investigação relaciona-se ainda com o crescimento e consolidação dos cursos de graduação e pós-graduação em Jornalismo na cidade de Cascavel, cursos estes que formam, anualmente, cerca de 150 novos profissionais e futuros pesquisadores na área.

Na fase de produção de monografias e artigos, os acadêmicos enfrentam dificuldade em encontrar fontes documentais que descrevam a história dos jornais da cidade.

Notas

[1] Entrevista concedida aos jornalistas Flaviane Christ e Leozil Ribeiro. 06 de novembro de 2004.

[2] A Industrial Madeireira Colonizadora Rio Paraná S/A. - Maripá comprou a fazenda Britânia dos ingleses da Companhia de Maderas del Alto Paraná, subdividindo o latifúndio em pequenas propriedades de 10 alqueires paulistas, aproximadamente 25 hectares e desenvolvendo um projeto para a povoação de uma nova cidade.

[3] Entrevista concedida aos jornalistas Flaviane Christ e Leozil Ribeiro. 06 de novembro de 2004.

[4] SPERANÇA, Alceu. Cascavel, a história. Curitiba: Lagarto, 1992. Página 122.

[5] Entrevista concedida aos jornalistas Flaviane Christ e Leozil Ribeiro. 06 de novembro de 2004.

[6] SPERANÇA, Alceu. Cascavel, a história. Curitiba: Lagarto, 1992. Página 131.

[7] Entrevista à autora em 05 de dezembro de 2005.

[8] Cascavel, livro Ouro - 50 anos de história. Cascavel. 2002. Página 14.

[9] Cascavel, livro Ouro - 50 anos de história. Cascavel, 2002. Página 16.

[10] Entrevista à autora em 21 de novembro de 2005.

[11] Entrevista à autora em 29 de março de 2006.

[12] Entrevista à autora em 29 de março de 2006.

[13] Correio D'Oeste. 6 de junho de 1954. Página 4.

[14] SPERANÇA, Alceu. SPERANÇA, Carlos. Pequena história de Cascavel e do Oeste. Cascavel, 1980.

[15] Correio D'Oeste. 6 de novembro de 1956. Página 1.

[16] Poeta e dramaturgo barroco (1562 - 1635), é considerado o criador do teatro espanhol do século XVII. Extremamente produtivo, consta que escreveu 1.500 peças.

[17] Entrevista à autora em 21 de novembro de 2005.

[18] Idem.

[19] O Paraná. 15 de maio de 1996. Página A 6.

[20] SPERANÇA, Alceu. SPERANÇA, Carlos. Pequena história de Cascavel e do Oeste. Cascavel, 1980.

[21] Diário D'Oeste. 11 de novembro de 1962. Página 2.

[22] Diário D'Oeste. 11 de novembro de 1962. Página 7.

[23] Fronteira do Iguaçu. 30 de março de 1977.

[24] Entrevista à autora em 29 de março de 2006.

[25] DINES, Dines. O papel do jornal. São Paulo: Summus, 1986.

[26] LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Unicamp, 1992.

[27] BOSI, Ecléa Bosi. O tempo vivo da memória. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

[28] PONTES, Felipe Simão; GADINI, Luiz. Mídia, História e Memória dos Campos Gerais do Paraná. Breve análise histórica do jornalismo impresso na cidade de Ponta Grossa (PR). In: ENCONTRO NACIONAL DA HISTÓRIA DA MÍDIA. 23, Novo Hamburgo, 2005. Anais. Novo Hamburgo: Rede Alcar, 2005.

[29] HABERMAS, Jurgen. In: GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide - para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre, Tchê, 1987.

Referências bibliográficas

BOSI, Ecléa. O tempo vivo da memória. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

DINES, Alberto. O papel do jornal. São Paulo: Summus, 1986.

GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide - para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre, Tchê, 1987.

HABERMAS, Jurgen. In GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide - para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre, Tchê, 1987.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1992.

SPERANÇA, Alceu. Cascavel, a história. Curitiba: Lagarto, 1992.

PONTES, Felipe Simão; GADINI, Luiz. Mídia, História e Memória dos Campos Gerais do Paraná. Breve análise histórica do jornalismo impresso na cidade de Ponta Grossa (PR). In: ENCONTRO NACIONAL DA HISTÓRIA DA MÍDIA. 23, Novo Hamburgo, 2005. Anais. Novo Hamburgo: Rede Alcar, 2005.

Jornais consultados

  • Diário do Oeste
  • Correio d'Oeste
  • A Verdade
  • Fronteira do Iguaçu

*Claudia Jawsnicker é jornalista profissional. Mestre em Educação, trabalhou como repórter e redatora no jornal O Globo (RJ) e é professora de jornalismo na FAG e UNIVEL, ambas localizadas em Cascavel, no Oeste do Paraná. E-mail: jawsnick@certto.com.br.

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