Conferência pauta problemas ambientais que estão presentes no cotidiano do são remano

 

Nos últimos dias, o Brasil foi palco da Rio+20, que é a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. O evento, que aconteceu no Rio de Janeiro, reuniu líderes de governo, cientistas, empresários, comunidades indígenas e pessoas do mundo todo para debater tanto o presente quanto o futuro do nosso planeta. A Rio+20 marca o aniversário de 20 anos da Rio-92, uma outra reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) que tentava uma conciliação entre o desenvolvimento econômico e a proteção do meio ambiente.

A nova conferência tenta, além de analisar o que já foi feito desde a Rio-92, buscar novas soluções e alternativas para os impactos causados pelo ser humano ao meio ambiente. As lideranças procuram novas soluções como a economia verde e a sustentabilidade para contornar problemas como a emissão descontrolada de gases do efeito estufa, o desmatamento e o descarte exagerado de lixo. Contudo, tomar essas medidas não significa prejuízo para as pessoas, pelo contrário, são discutidas soluções que beneficiem a sociedade nos aspectos ambiental e econômico.

Rio+20 e os são remanos

As decisões que foram tomadas na Rio+20 afetarão o mundo inteiro, incluindo  a São Remo. Se o compromisso firmado entre os líderes for capaz de diminuir a emissão de gases do efeito estufa e amenizar os impactos do aquecimento global, as enchentes que acontecem no Riacho Doce serão reduzidas. Além de evitar as enchentes, a preocupação com o meio ambiente também se insere em medidas do governo para acabar com as áreas de risco do Riacho Doce.

Outro problema comum no cotidiano dos são remanos poderia ser resolvido se as decisões da Rio+20 fossem praticadas por todos: o lixo. Uma coleta seletiva de qualidade e programas eficientes de reciclagem são soluções não só para um bairro mais limpo, mas também para a geração de empregos. As decisões da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável são apenas o começo de mudanças que devem ser interiorizadas por todos, para que um futuro melhor seja aos poucos construído.

Pontos negativos na Rio+20

Carlos Henrique Oliveira, arquiteto urbanista formado pela USP, esteve na Rio+20, e relatou os aspectos mais discutidos e que estão sendo preparados no documento final.

Uma das propostas que estavam em debate na conferência está relacionada a um fundo em dinheiro que seria destinado à sustentabilidade. Ao final das discussões, que aconteceram até a última quarta, este fundo foi suspenso.

O urbanista contou que não aprovar essa verba e outras decisões sobre ações necessárias comprometerá as condições de mudança das tendências de agravamento das alterações climáticas e ambientais.

A respeito da ausência de muitos líderes mundiais no evento, como Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, ele diz que isso pode dificultar o compromisso dos países em adotar as medidas discutidas na conferência.

Entrevista: Carlos Henrique Oliveira

Carlos Henrique Oliveira,  arquiteto formado pela FAU-USP respondeu algumas questões sobre o tema, que aqui vocês vem na íntegra.

1.Qual é o impacto de adiar a criação do fundo para a sustentabilidade que seria criado este
ano para 2014?
Atualmente, estamos num processo de agravamento do equilíbrio dos ecossistemas e há
necessidade de alterar alguns dos processos atuais (principalmente os relacionados ao modelo
de produção e de consumo), de forma a iniciar a reversão do sentido da curva da degradação
ambiental (em crescimento).
Portanto, o adiamento de quaisquer decisões sobre ações necessárias comprometerá as
condições de mudança das tendências de agravamento das alterações climáticas e ambientais.
A proposta de criação de um fundo para apoiar a estruturação e implantação de ações de
recuperação da qualidade ambiental visa dotar de concretude as proposições existentes,
sejam de caráter global, regional ou local.
Sem o aporte de recursos financeiros, as propostas (projetos e planos) certamente ficarão
restritas a iniciativas isoladas, comprometendo o atingimento das metas globais de redução de
emissões e de impactos – primeira medida a ser alcançada/viabilizada.

2. O que pode mudar nas decisões acertadas para a votação do documento partir de quinta,
com a baixa participação de autoridades ao evento, a exemplo de Barack Obama e Angela
Merkel?
Pode comprometer, principalmente, o compromisso real dos países em adotar as medidas
propostas e consensuadas. Pode resultar em acordos superficiais, sem comprometimento ou
obrigatoriedade de implementação.
Infelizmente, a crise econômica está sendo considerada como o principal assunto a ser
discutido, tirando o foco das discussões mais importantes – como a crise ambiental (mais
longa e profunda), a desigualdade socioambiental, a fome e a miséria.
A perda de força da Rio+20 (Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento
Sustentável) reflete a divisão dos blocos de países de acordo com seus interesses (e de
seus “financiadores”). É preciso destacar que as empresas transnacionais estão atentas aos
movimentos na área ambiental e atuam de forma a apoiar algumas ações.
Entretanto, acabam tendo, como escudo, as posições adotadas pelos governos, que impedem
ou atrasam as definições de políticas de caráter ambiental, mantendo, assim, as condições
de mercado. Ou seja, promovem ações isoladas junto a alguns mercados consumidores mais
conscientes, mas possuem posturas diferenciadas em cada país, aproveitando-se das posições
protecionistas dos governos onde estão suas matrizes organizacionais.
As sociedades desenvolvidas estão buscando incentivar o comércio baseado no desperdício
– isto é, do consumo fortalecido, gerando circulação de riquezas. É a “esquizofrenia” do
consumo, como mais uma forma de salvação do “capitalismo 2.0”.

3. A temática da sustentabilidade não envolve somente assuntos como a preservação de matas
e de recursos naturais, mas também soluções urbanísticas, e também o saneamento, a gestão
do lixo, entre outros. Há alguma solução no Brasil que poderia ser usada em outros locais e
principalmente nas grandes cidades?
Há algumas iniciativas isoladas, mas não integradas. Existe um movimento denominado
Transitions Towns (cidades em transição), que busca estabelecer as bases de sustentabilidade
no ambiente urbano, integrando os diversos aspectos relacionados à infraestrutura necessária
para o funcionamento de uma cidade.

Neste sentido, considera que uma cidade, além da parte físico-territorial, está estruturada em
cadeias de relações dinâmicas e de sistemas. Os grandes centros urbanos – como organismos
vivos – demandam energia para seu funcionamento. Entretanto, estão exigindo níveis cada
vez maiores de energia e gerando volumes também crescentes de resíduos (sólidos, líquidos e
gasosos) que necessitam de tratamento.
No Brasil (segundo dados do IBGE – Censo 2010), mais de 85% da população reside no meio
urbano, demandando infraestrutura e serviços cada vez mais complexos. Assim, as soluções
também passam a ser mais complexas, tanto pela quantidade como pela qualidade dos
mesmos.
Há poucos exemplos neste sentido, já que os gestores públicos ainda não conseguiram
empreender políticas e ações públicas integradas, onde a melhoria dos sistemas de
infraestrutura reflita positiva e diretamente nos indicadores de saúde e de bem estar social, ou
ainda, na qualidade do ambiente.
Poderia haver melhorias nos sistemas de mobilidade urbana, com a integração de sistemas
e modais diferenciados, acessíveis a toda população. Nas regiões metropolitanas brasileiras,
por exemplo, os sistemas de transporte público metropolitano dificilmente “dialogam” com os
sistemas locais/municipais – seja em termos estruturais, seja nos aspectos tarifários.
No aspecto do saneamento, pouquíssimos são os exemplos de gestão integrada ou associada
dos serviços, com destaque para a gestão e o manejo de resíduos sólidos. Os programas de
coleta seletiva, por exemplo, quando existentes, não são integrados entre os municípios,
fazendo com que os custos sejam altos e a escala de economia muito baixa (e frágil).
Com relação à energia, a distância para a sustentabilidade é ainda maior, já que as alternativas
de geração de energia estão restritas a algumas poucas iniciativas, e geralmente vinculadas a
empreendimentos específicos (edificações ou instalações específicas).
Existem pouquíssimos exemplos de planejamento das ações de caráter sustentável. As cidades
de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo, desenvolveram estudos que utilizaram uma
metodologia desenvolvida pela ONU, denominada GEO Cidade (Global Environment Outlook),
que consiste num conjunto de indicadores de sustentabilidade, que permite orientar a
implementação de ações e, também, acompanhar o desenvolvimento das mesmas, de forma
a atingir os objetivos propostos. Este também é o intuito do Programa Cidades Sustentáveis,
proposto pela sociedade civil (Movimento Nossa São Paulo, Instituto Ethos). São ferramentas
poderosíssimas de apoio à gestão, mas que ainda não foram incorporadas pelos gestores
públicos.
A visão integrada da sustentabilidade é o primeiro passo a ser dado pelas cidades para que se
possa, efetivamente, avançar nos níveis de qualidade da gestão urbana.

4. Uma pesquisa do Ministério do Meio Ambiente, realizada uma semana antes da Rio+20,
constatou que 78% dos brasileiros não conhecem a conferência. Como fazer com que as
descobertas e as discussões que estão principalmente em âmbito acadêmico cheguem à
população?
Os meios são os mais variados, mas prevalecem os relacionados ao processo educativo e de
informação. Alguns profissionais da área social entendem que os problemas são considerados
mais urgentes quando são mais concretos e mais próximos do dia a dia da população. Daí se
explica que, em qualquer pesquisa ou sondagem com a população, os temas de segurança,
saúde e emprego sejam os de mais alta conta e preocupação.

O tema ambiental (ou socioambiental) ainda não está no cotidiano das pessoas por não ser
considerado – ou compreendido – como fator gerador de diversos problemas existentes. Não
se relaciona, por exemplo, a poluição do ar como a causa do número elevado de doenças
respiratórias/cardíacas ou de mortalidade, nas grandes cidades. Daí, quando é implantado um
programa com este objetivo – como é o caso da inspeção veicular -, a maioria entende que
seja uma ação que visa, apenas, arrecadar mais impostos.
Mesmo na ocorrência de desastres naturais – como na serra fluminense, nos verões passados
-, a associação com os fatores ambientais fica restrita à cobertura jornalística revestida de
cores fortes relacionadas à tragédia – e não à análise e reflexão das causas. O espírito solidário
da população brasileira faz com que todos se envolvam e se mobilizem na tragédia, mas
não apresentem a mesma disposição para evitar que elas aconteçam ou atuem de forma
preventiva – para resolver a questão no seu aspecto principal.
Assim, é importante investir no processo educativo, de formação de uma consciência coletiva
socioambiental, correlacionando os diversos aspectos que compõem a vida urbana, buscando
integrar as ações, os planos e programas que possuem interface direta, atuando nas causas
efetivas dos problemas – e não de maneira paliativa, agindo apenas sobre os efeitos.

Por: Fernado Oliveira e Gabriely Araújo

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