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EDITORIAL

       Paralelamente às grandes transformações musicais ocorridas no século XX, o desenvolvimento da Análise Musical ocupa lugar privilegiado. Essa atividade cresceu com a criação artística diversificada que marcou este século, trazendo com ela desafios para o estudo e a compreensão do pensamento, tanto nas linhas da composição como nas da interpretação musical – sempre aliadas às formas de audição. Com isso, apareceram novas técnicas para se entender a música do presente e do passado, aspectos estritamente musicais se juntaram a outros, formando interfaces que enriquecem essa arte em comparações e relacionamentos até então desconhecidos. A Análise representa sempre o fascínio de enfrentar o desconhecido, que encanta os que se aproximam e a eles proporciona a alegria da descoberta.

       Este I Encontro Internacional de Análise Musical, organizado pelas Universidades USP, UNESP e UNICAMP, vem dar um novo fôlego a esta área da Música, que se fortalece nos cursos de Pós-Graduação no Brasil. As publicações de Análise ainda não são muitas, estão geralmente distribuídas entre as várias existentes, exceção feita ao pioneirismo do pesquisador Carlos Kater que, nos anos 90 editou uma revista exclusiva, os nove números dos Cadernos de Estudo: Análise Musical (Atravez).

       É para nós uma alegria poder contar com o registro das atividades desse Encontro, constante de conferências, comunicações e mesas redondas, manifestações que suscitaram debates de grande interesse.

       Valendo-se como base bibliográfica das teorias do próprio compositor, aliadas à dos conjuntos e conceitos sobre texturas, Daniel Paes de Barros Pinto e Adriana Lopes da Cunha Moreira apresentam a comunicação Quatuor pour la fin du Temps, de Olivier Messiaen: um olhar sobre o quarto movimento através dos escritos teóricos do compositor. Ao analisar a rítmica, o contorno melódico e a harmonia na formação da textura, demonstram como esta última atua de maneira estrutural na organização geral da peça.

       A estrutura harmônica representa um dos aspectos básicos na Análise Musical e quando trata de repertório que contribuiu para a abertura dos processos praticados na tonalidade, se reveste de particular interesse, pelos novos relacionamentos que proporciona. A pesquisa de Vanessa Rodrigues Nonisapresentada no artigo Omnibus: definições e aplicações analíticas no repertório do século XIX e início do século XX, estuda um processo harmônico tratado por vários autores em exemplos representativos.

       Webern, um dos compositores da chamada Segunda Escola de Viena, tornado referência para a música do século XX, é analisado nos aspectos de técnica composicional por Isaac Terceros Montaño e Adriana Lopes da Cunha Moreira no artigo Cinco Peças Orquestrais Op. 10, n. 4, de Anton Webern: Considerações sobre simetria. Os autores buscam estabelecer pontos de comparação, simetria e complementação entre conjuntos de alturas e demais domínios musicais como forma, textura e timbre na descoberta de como o compositor organizou o material.

       Concepções da rítmica de Webern são observadas no trabalho Aspectos Rítmicos na Introdução das Variações para Orquestra Op. 30 de Anton Webern, de Ísis Biazioli de Oliveira e Paulo de Tarso Salles. Discute a organização dos motivos rítmicos nos primeiros vinte compassos da peça, assim como apontamentos sobre a métrica mista e a constante alternância de dois andamentos. São resultados de primeiras investigações, que poderão se estender futuramente à peça toda.

       A Análise na visão de um compositor está representada aqui no trabalho de Silvio Ferraz, Luciano Berio – Circles: composição por ciclos, no qual realiza uma leitura da primeira canção, para voz feminina e percussão, sobre poema de e.e.cummings. Utilizando-se do conceito do Ritornelo desenvolvido por Gilles Deleuze e Felix Guattari, aliado a conceitos de tempo, o autor desenvolve gráficos para demonstrar as estratégias pelas quais o compositor dá consistência à sobreposição de elementos da composição, através da recorrência de fragmentos.

       Uma das linhas de pesquisa que encontra grande interesse é a que une Análise e Interpretação, o que é possível observar na investigação de Walter Nery Filho sobre a música de jazz, em O estilo de improvisação do guitarrista Kurt Rosenwinkel: uma análise do solo sobre a canção “How Deep is the Ocean”. O trabalho estuda os principais elementos do discurso musical desse artista norte-americano, que se firmou na década de 90 e descreve em gráficos o uso do material como escalas, seqüências, motivos, harmonias, aspectos rítmicos entre outros, formadores dos princípios da improvisação praticada.

       Gustavo Rodrigues Penha apresenta Análise de AN (1989), de Stefano Gervasoni e mostra como o compositor italiano desenvolve a idéia poética de inexpressividade, realizada através de um jogo de desconstrução, fragmentação e reconstrução de objetos musicais ou textos literários. A análise relaciona os objetos de AN entre si e com elementos retirados de dois Lieder de Schubert, ligação indicada no subtítulo da peça, quasi una serenata, con la cumplicitá di Schubert.

       Ainda na linha de compreender a poética do compositor, o trabalho de Felipe Merker Castellani Análise da obra Time and Motion Study I de Brian Ferneyhough, para clarinete baixo solo. Nesta primeira de uma série de peças escritas entre 1971 e 1977, o artigo descreve em gráficos os processos composicionais constantes de oposição e integração de tipos contrastantes de atividade; compressão temporal; aspectos rítmicos, tudo enfatizando a idéia do compositor sobre a importância de uma potencialidade de movimentos.

       Para estudar técnicas de Análise, Marisa Ramires Rosa de Lima investiga os Aspectos pioneiros da Teoria de Costère: alguns paralelos com a Teoria dos Conjuntos, em comparações entre aspectos e termos de Costère e Allen Forte. A ênfase está colocada na estrutura dos agrupamentos sonoros, apresentados em gráficos que a autora detalha.

       A análise serviu como fundamento na investigação de Luciana Sayure Shimabuco para Um olhar comparativo entre duas propostas de edição do Estudo Rítmico n.3 para piano solo de Cyro Pereira. O trabalho parte da observação de cópias manuscritas, compara-as, entra em contato com o compositor e opta por soluções para uma edição crítica. Os Estudos Rítmicos datam de 1960 a 1963 e aqui são apresentadas duas versões do Estudo Ritmico n. 3, uma vez que no decorrer da pesquisa surgiu um novo manuscrito, que trouxe novos dados sobre as decisões composicionais.

       Composições de György Ligeti de 1968 são objeto de pesquisa de Claudio Vitale, apresentadas em A gradação nas peças 5 e 6 das Dez peças para quinteto de sopros de György Ligeti. O artigo descreve processos graduais, relacionando o termo a outros conceitos como os de ilusão e continuidade. Com base em declarações do próprio compositor, demonstra a utilização das transformações progressivas através de parâmetros como dinâmica, registro, textura e tempo, aliados às alturas. Conclui observando como a gradação constitui-se no meio fundamental que dá consistência e unidade à expressão musical.

       Podem-se conhecer processos do compositor português Emmanuel Nunes presentes na pesquisa de Said Athié Bonduki e apresentadas no artigo Análise da obra Einspielung I de Emmanuel Nunes. Trata de uma peça de 1979, para violino solo, a primeira de um ciclo, fato apontado como uma das características da criação deste compositor, resultado da exploração dos parâmetros por ele estabelecidos, como por exemplo, os pares rítmicos.

       Entrando nas composições do século XXI, Maurício Funcia De Bonis analisa A função estrutural da citação em um Noturno de Willy Corrêa, uma peça para piano de 2002, Noturno em torno de uma deusa nua. O texto faz um levantamento e uma classificação das citações encontradas e propõe uma análise a partir de suas sugestões semânticas. O estudo dos materiais segundo a característica timbrística leva à conclusão de ser este aspecto um dos principais responsáveis pela clareza da estrutura da peça.

       O compositor Mário Del Nunzio analisa sua própria peça em Fisicalidade e zonas limítrofes da notação musical: reflexões sobre o processo composicional de “Serenata Arquicúbica” (2008). Para guitarra, eletrônica ao vivo e vídeo opcional, tem como suporte uma vídeopartitura e neste artigo a análise nota o gesto instrumental, que pode ser desconstruído nos seus elementos constituintes.

       A todos, um bom proveito!
Maria Lúcia Pascoal              







 
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