Resumos da programação do II Fórum Comunicação e Trabalho

Conheça um pouco mais sobre a programação do II Fórum Comunicação e Trabalho, organizado pelo CPCT, que será realizado no dia 05 de setembro dentro do Congresso da Intercom 2017, na cidade de Curitiba.

09h00 às 12h30_Mesa 1: O trabalho na comunicação e a comunicação como trabalho

A literatura brasileira e os discursos sobre o trabalho: o texto literário como veículo de comunicação
Angela Maria Rubel Fanini
Professora do Programa de Pós-Graduação Tecnologia e Sociedade (PPGTE) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)

Esta comunicação analisa as articulações entre técnica, tecnologia, trabalho e discurso a partir de uma abordagem interdisciplinar, procurando perceber como textos da Literatura Brasileira (romances e contos) formalizam uma dada visão sobre o universo da produção material humana. A análise dialógica do discurso (Mikhail Bakhtin e o círculo russo) sustenta a pesquisa quanto à problematização do discurso, dando suporte para se entender como os escritores escrevem sobre a produção humana, ou seja, sobre o homo faber. As vozes literárias criam e recriam o mundo material e o problematizam em sua dimensão histórica imediata e atemporal simultaneamente. O escritor, à medida que escreve obras literárias sobre o que se produz no trabalho cotidiano dos homens, interfere na realidade social visto que o discurso não só reflete a realidade, reproduzindo-a ou nomeando-a tal qual é, mas a refrata, reinstaura, instaura, consoante certa visão de mundo que plasma em suas obras. Assim, os intelectuais, ao escreverem sobre a dimensão laboral, também a modificam à proporção que a podem qualificar, desvalorizar, carnavalizar ou elogiar. Estudar essas produções discursivas pode contribuir para entender as relações laborais entre os homens, articulando o homo faber ao homo simbolicus. O homem não só trabalha, mas também fala e escreve sobre o trabalho. A noção de trabalho também recorre a toda uma tradição marxista que tem se debruçado exaustiva e pertinentemente sobre o universo do trabalho. Com essa tradição também se dialoga nesta comunicação.

A comunicação no contexto da uberização do trabalho: a subjetividade humana em meio a um “debate de normas”
Claudia Nociolini Rebechi
Professora do Departamento de Linguagem e Comunicação (DALIC) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)
Pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, ECA-USP

A fase atual do capitalismo apresenta um novo modelo de organização e gestão do trabalho pautado na combinação entre o avanço tecnológico e a precarização do trabalho. Trata-se do fenômeno conhecido como “uberização” guiado por princípios tais como: flexibilização, autonomia, valorização das habilidades pessoais, democratização da comunicação na esfera do consumo, ausência de vínculo empregatício, desregulamentação e falta de mecanismos de segurança social. Sob essa égide, aos milhares de trabalhadores e trabalhadoras é demandado que gerencie seu próprio trabalho e, ao mesmo tempo, que estejam subordinados ao controle e à vigilância de empresas detentoras de plataformas digitais e de aplicativos e de consumidores ávidos por serviços de qualidade a preços acessíveis. Dentro desse contexto, pretende-se discutir a comunicação e seus usos no gerenciamento do trabalho uberizado, considerando que os trabalhadores e as trabalhadoras, a partir da mobilização de sua subjetividade, encontram-se em meio a um “debate de normas” constituído pela dialética entre o prescrito e o real, entre as normas e a renormalização, entre os saberes constituídos e investidos. Com base na abordagem ergológica de comunicação e trabalho estudada no Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT) da ECA-USP, nossa proposta é tentar entender o lugar da comunicação na gestão do trabalho uberizado, levando em conta o pressuposto de que o trabalho é uma atividade sempre gerida por aquele que o realiza, mas também pode ser administrada por outros, criando distintas racionalidades e contradições no mundo do trabalho.

Os computares como trabalho: pequenos apontamentos sobre cibernética e tecnologia em Álvaro Vieira Pinto
Luiz Ernesto Merkle
Professor do Programa de Pós-Graduação Tecnologia e Sociedade (PPGTE) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)

Álvaro Vieira Pinto, médico e professor brasileiro, refletiu em diversas obras sobre ideologia e desenvolvimento, sociologia e desenvolvimento, consciência e realidade, ciência e existência, pensamento crítico e demografia, educação de adultos, e, tecnologia, compreende as culturas e as tecnologias como inseparáveis da produção da existência humana, em suas dimensões cognitivas, situadas, históricas, sociais geográficas e políticas. No segundo volume de uma de suas obras publicadas postumamente, O Conceito de Tecnologia, ele tece considerações sobre várias correntes do que então se denominava cibernética, mas já incluindo o desenvolvimento de máquinas e outros automatismos associados ao processamento de informação, e apontando os limites e as contradições de certas abordagens formais, e a necessidade de compreendê-las e estendê-las em base dialética, de modo a dar conta de suas implicações e desdobramentos junto as sociedades onde tiveram ou têm lugar. Atualmente, posso afirmar que a Cibernética que Vieira Pinto trabalhou neste volume, assim como fez com a Ciência em outro, transcende fronteiras disciplinares reforçadas neste ínterim por diversas áreas, em horizontes que abrigariam hoje disciplinas do saber e do fazer não só como a Engenharia, a Computação, a Automação, mas também como a Comunicação, a Economia, a Educação, a Filosofia, os Estudos Culturais e as Ciências Cognitivas, dentre outras. Temas como Informação, Inteligência, Autonomia, Trabalho em Grupo, alguns canônicos na formação e conformação destas disciplinas, são por ele esmiuçados, questionados, criticados, nos permitindo refletir sobre a quem tais disciplinas, e suas divisões de trabalho articuladas, permitem ou permitiram a produção da existência, de modo efetivo, crítico, libertador, e a quem estes colonizam, subalternizam, invisibilizam. O foco de minha fala se concentrará nos computares, compreendendo estes como atividades humanas, como trabalho, que requerem o computar, o considerar, os suputar, muitas vezes mediados pela cultura material, por maquinismos e automatismos, ou outros suportes de compartilhamento e comunicação, quiçá um dia contribuindo para a construção de uma Computação, de um Design, de uma Comunicação, de uma Educação Outras, onde e para quem a alteridade não seja álibi para a exclusão, para a alienação, mas fundamento para a igualdade, para criatividade, para a liberdade.

A comunicação no mundo do trabalho revela as contradições e os conflitos da luta de classes no contemporâneo
Roseli Figaro
Coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, ECA-USP
Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, ECA-USP

Nossa comunicação trata do estudo a comunicação no mundo do trabalho. Observamos o micro do trabalho para entender as relações de comunicação, ou seja, como os sentidos circulam na sociedade e como a comunicação permite realizar o trabalho. Essa compreensão remonta à ontologia do ser social como filosofia que reconhece o ser humano como totalidade objetivada nas relações sociais (Lukács, 2012), ou aos moldes em que Marx e Engels tratam o sujeito em Ideologia Alemã (2007). A observação das relações de comunicação no trabalho revela a densidade desse “mundo do trabalho” que se constitui como “território” físico e simbólico no qual uma miríade de relações, saberes, ações, poderes e disputas se materializam. Nesse micro do trabalho, as relações de comunicação estão materializadas em gestos, movimentos, discursos normativos, denotadores da hierarquia e das metas a serem cumpridas /produzidas, e também por gestos, movimentos e discursos de contraposição em diferentes escalas e níveis de intervenção e consequência para as lógicas do trabalho e das relações de poder. Esse “mundo do trabalho” é o lugar de contraposição de forças, as quais se manifestam por meio da comunicação. O mundo do trabalho é um “espaço/tempo” de disputas, está marcado por contradições: encontram-se ali as marcas das relações de comunicação confrontadas com as disputas mais gerais dos embates globais da luta de classes na contemporaneidade.

14h00 às 18h00_Mesa 2: A liberdade de expressão no trabalho e o trabalho jornalístico na mídia alternativa e independent

O trabalho dos jornalistas em arranjos econômicos independentes de corporações de mídia: resultados iniciais da pesquisa do CPCT-ECA/USP
Claudia Nonato
Professora do Mestrado profissional em jornalismo, FIAM-FAAM
Pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, ECA-USP

A reestruturação das formas de trabalho jornalístico contemporâneo, as inovações na rotina jornalística e também o desemprego, fazem com que jornalistas adotem e incorporem alternativas de trabalho. Diante dessas questões, será apresentada a metodologia adotada e os primeiros resultados quantitativos da pesquisa coletiva iniciada em 2016 (com apoio da FAPESP), pelo Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT-ECA/USP), intitulada “As relações de comunicação e as condições de produção no trabalho de jornalistas em arranjos econômicos independentes de corporações de mídia”. O objetivo geral da pesquisa é analisar as relações de comunicação e as condições de produção no trabalho jornalístico em arranjos econômicos “alternativos” às grandes corporações de mídia. Para tanto, a investigação utilizou o “Mapa do Jornalismo Independente”, levantamento criado pela Agência Pública em 2016, além da inserção de novos dados, incorporados por componentes do grupo, formando um “banco de dados”, com 183 iniciativas do Brasil e 73 de São Paulo. É a partir dele que começa a nossa investigação, e cujos primeiros resultados mostram todo tipo de diversidade nas identificações.

A relações de trabalho na mídia alternativa: primeira abordagem empírica para análise da produção de sentido
Ana Flávia Marques
Coordenadora do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
Pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, ECA-USP

Segundo a tese de doutorado de Maria Alice Campagnoli Otre (2015), no período de 1972 até 2012 foram elaboradas 87 dissertações e 15 teses, totalizando 102 pesquisas sobre comunicação popular, alternativa e comunitária (CPAC). Dentre essas pesquisas há uma grande lacuna científica sobre as relações de trabalho nos arranjos que pretendem alcançar posicionamento contra-hegemônico em relação às empresas de comunicação. Esses arranjos são fundados em eixos diferenciais da chamada “grande imprensa”, com uma estrutura horizontal em que o objetivo não é acentuar a commoditização da forma jornalística, mas evidenciar pautas que geralmente não são veiculadas pelas grandes corporações de mídia. Dentre esse cenário, a análise das relações de trabalho, tendo como base que é no mundo do trabalho que o indivíduo se realiza como ser social (ANTUNES, 2002) e que é um espaço de mediação da comunicação e produção de sentido (FÍGARO, 2008), tem larga relevância para entender o processo de construção e produção de sentidos para o trabalhador. Por meio de questionário voltado aos trabalhadores dos arranjos alternativos de comunicação, pretendemos buscar respostas para o início de um estudo aprofundado sobre o direito à consciência garantido constitucionalmente e as condições de trabalho na mídia alternativa e independente.

Liberdade de expressão e os usos dramáticos de si
Fernando Pachi
Professor do Instituto de Ciências Sociais e Comunicação da Universidade Paulista (UNIP)
Pesquisador do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, ECA-USP

A liberdade de expressão, entendida como direito fundamental dos cidadãos e valor definidor para a comunicação e o trabalho, adquire sentidos particulares se considerada na relação dos trabalhadores com as organizações nas quais exercem sua atividade profissional. Com base em informações obtidas em 40 entrevistas com trabalhadores em pesquisa realizada no CPCT, é possível afirmar que a grande maioria dos entrevistados se sente livre para contribuir com sugestões para aprimoramento das práticas de trabalho, conforme os ditames da administração contemporânea orientada pelos preceitos de ´valorização dos indivíduos´ e de qualidade. A captura da expressão dos trabalhadores em benefício das organizações é assim vista como determinante para o bom andamento da gestão do trabalho. No entanto, a liberdade de expressão dos indivíduos para além da esfera do que pode ser considerado estritamente profissional encontra obstáculos e nem sempre os trabalhadores se sentem à vontade para expressar críticas e opiniões acerca do trabalho, das organizações ou de aspectos da vida social. Saber lidar com estas restrições é um ´aprendizado´ que integra as dramáticas do uso de si no trabalho. Silenciar as opiniões e as críticas é, portanto, uma ´prescrição informal´ e parte da experiência cotidiana de trabalhadores que normalizam a ausência de aspectos da liberdade de expressão como condição da situação de trabalho.

Jornalismo independente de fato
Joka Madruga
Idealizador e editor do Terra Sem Males

Os trabalhadores jornalistas nem sempre podem publicar o que gostariam nos jornais comerciais que mantém seus vínculos empregatícios. A veiculação da informação está condicionada a interesses, também comerciais, de patrocinadores e de linhas editoriais. “O patrocinador” pode cancelar o contrato. E entendo como “patrocinador” empresas e políticos que pagam para que seus “produtos” ou ideologia(s) tenham visibilidade. O jornalismo independente não está isento da ideologia e da linha editorial, mas não aceita pressão vinculada a interesses comerciais. O compromisso de ser verdadeiro com o público deveria ser a principal motivação de um veículo de comunicação. E é dessa característica básica do jornalismo que os veículos que atuam de forma independente se apropriam. Infelizmente, dentro da chamada “mídia independente” também há excessos. E muitos confundem o bloguismo com jornalismo. A maioria dos blogueiros nas redes sociais não produzem, apenas compartilham conteúdos. Muitas vezes sem a checagem de veracidade. E é necessário produzir. Ir atrás das histórias que estão por aí. Sempre tem. Disso é feito o jornalismo, a reportagem. E não ficar apenas comentando o que os outros criam. É importante ter a opinião e leituras diversas de uma situação. Mas para ser jornalismo é preciso colocar o pé na lama. E para ser independente é necessário ser firme. Um dos problemas do trabalho jornalístico na imprensa alternativa é o financeiro. Produzir uma reportagem de campo requer tempo e recursos. E isso tem custo. Pode parecer uma contradição. De um lado ter os “patrocinadores” pressionando e por outro precisar do dinheiro. Como saber andar neste fio de navalha?

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