Centro Mario Schenberg

de Documentação da Pesquisa em Artes - ECA/USP

  • Aumentar tamanho da fonte
  • Tamanho da fonte padrão
  • Diminuir tamanho da fonte

Realismo Fantástico, Arte Mágica e Surrealismo

A criação artística durante o século XX se tem caracterizado pela tendência a ampliação contínua das fronteiras da mente, segundo a expressão feliz de Herbert (...), havendo já agora uma preocupação crescente de associá-la a um enriquecimento contínuo das percepções táteis, sinestésicas e corporais de vários tipos. Certas formas de arte fantástica do fim do século passado, o expressionismo, o dadaísmo, o surrealismo e algumas experiências abstracionistas ou mesmo concretistas representaram ferramentas importantes do nosso processo na primeira metade do século.
Falta ainda uma perspectiva histórica suficiente para avaliar claramente as etapas que vem se sucedendo tempestuosamente nos últimos vinte anos. Podemos mencionar as pesquisas de arte psicodélica, o nascente realismo fantástico, a tendência para uma arte mágica tântrica, as obras informais influenciadas pela arte Zen do Extremo Oriente, muitas formas de arte objetista, os happenings, algumas experiências do op, a arte ritual, realizações como as de Lígia Clark nos últimos anos, relacionadas com a arte fenomenológica e as experiências de expressão corporal individuais e de grupo, a arte supersensorial de Hélio Oiticica etc. É tal a variedade das manifestações que por vezes se torna até difícil perceber o parentesco sutil que as relaciona.
Para compreender a essência dessas diferentes manifestações é necessário remontar à atitude humana básica que as determinou. Podemos esquematizá-la como um anseio de exprimir e comunicar uma experiência do mundo e da vida que vai além dos limites das impressões sensoriais e das emoções ordinárias, assim como do racionalismo e da religião tradicionais. Daí terem os primeiros passos sugeridos pelo sonho, aos românticos do século XIX. Aliás, o onirismo marcou toda a arte fantástica do século XIX e continuou a desempenhar um papel importante na do século XX, assim como no surrealismo.
O aparecimento desse anseio prenunciava uma crise profunda do mundo ocidental nos seus valores básicos e nas suas formas de apreensão do real, que só viria a manifestar em toda a sua plenitude na segunda metade do século XX, principalmente entre os jovens. Antes do seu esgotamento definitivo, que presenciamos atualmente, a cosmovisão e a cosmopercepção européias tinham ainda que concluir a sua missão histórica de construir uma civilização tecnológica e uma ciência do mundo material, tão estupendamente desenvolvida nos últimos quatro séculos. Agora parecem surgir novos objetivos de realização do homem na sua plenitude, numa nova fase da civilização, que mal podemos vislumbrar.
Com o impressionismo começou o desmoronamento da espacialidade renascentista. Escapar ao espaço da Renascença foi, essencialmente, o grande problema das artes plásticas durante quase um século. Já estava com a sua solução muito avançada quando surgiu o dadaísmo, logo seguido pelo movimento surrealista na década de 1920. O Cubismo representou uma etapa decisiva na superação do esquema espacial renascentista, especialmente pela introdução de uma visão espaço-temporal. A obra do cubismo foi concluída pelo construtivismo, a arte cinética, e a op, depois das contribuições importantes da Bauhaus e do concretismo. Agora nos encontramos finalmente num período em que os problemas puramente espaciais, temporais e formais já receberam um encaminhamento suficiente. Com isso a problemática da ampliação dos sentidos, da percepção, das emoções e da mente torna-se a mais importante. Exatamente a que fora levantada com tanta previsão pelos manifestos surrealistas, se bem que só em pequena parte realizada pelo movimento surrealista em arte.
O advento do surrealismo foi preparado pelo desenvolvimento da filosofia e, depois, da psicologia do inconsciente durante o século XIX e o começo do século XX. Surgiram assim a Psicanálise e a Parapsicologia, além das manifestações religiosas espíritas, antes raras na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Breton considerou também a magia e o ocultismo como fontes essenciais do surrealismo, pelo menos historicamente.
É importante compreender que o surrealismo não foi apenas um movimento das artes plásticas. A sua influência sobre a poesia foi provavelmente ainda maior do que nessas artes. Sobretudo, o surrealismo (que significa super-realismo) foi um programa geral de desenvolvimento humano, com fortes implicações sociais.
O surrealismo objetivava criar um novo tipo de homem, dotado de uma supermente capaz de unir os poderes da consciência com os do inconsciente. Sobre certos aspectos seria uma yoga para os ocidentais, que deveria lhes abrir novos mundos e lhes dar novos poderes.
O programa do surrealismo pode parecer totalmente utópico. Talvez seja o pressentimento de transformações profundas da espécie humana em futuro não muito remoto. Além das transformações devidas a mudanças no ambiente social, haverá provavelmente outras de tipo biológico, decorrentes de progressos da genética, e eventualmente processos evolutivos naturais descontínuos. Só o futuro poderá dizê-lo.   
A marca do surrealismo sobre os movimentos artísticos posteriores foi profunda e multiforme. O expressionismo abstrato, o movimento Cobra, o realismo fantástico, a arte psicodélica, a arte mágica, a arte ritual, o neodadaísmo e o super-realismo pop sofreram influências importantes do surrealismo, que atingiu até as formas publicitárias. Recordarei apenas a influência da escritura automática sobre Pollock e outros expressionistas abstratos americanos, a título de exemplo. 
Em alguns movimentos recentes encontramos influências combinadas de filosofias e artes orientais hinduístas e budistas com as do surrealismo. Há outras convergências muito interessantes de surrealismo e orientalismo. O ideal do homem gnóstico de Aurobindo tem semelhanças com a transformação desejada pelo surrealismo.
É provável que o surrealismo venha a aparecer, juntamente com o existencialismo e a psicologia do inconsciente, como uma das pontes entre a cultura ocidental e outras menos racionalistas e menos emocionalistas, na grande síntese que vai se operando, talvez como preparação preliminar para um grande salto. 
No Brasil a influência do surrealismo foi bastante fraca até recentemente. Só tivemos um grande surrealista na década dos trinta, Ismael Nery, mas que só agora vem recebendo a atenção merecida. Isso se deve talvez ao fato de haver no Brasil fortíssimas influências religiosas e mágicas de origem africana e ameríndia. No Brasil, como em muitos outros países da América Latina, nunca chegou a se fazer sentir falta do elemento mágico, como nas regiões da arraigada cultura ocidental pós-renascentista.
Entre nós o surrealismo só foi cultivado por artistas muito ligados a Europa, como Ismael e Di Cavalcanti, ou por artistas europeus vindos para cá, como Walter Lewy e Vinicius Pradella. Nos últimos anos houve um florescimento surpreendente de formas do realismo fantástico e da arte mágica, sobretudo entre os jovens artistas, que não parece ter sido basicamente devido ao surrealismo. Refletir tendências bastante profundas da vida brasileira liga-se também às correntes afins da arte mundial.
Nota-se também atualmente a influência crescente das filosofias e religiões orientais e do ocultismo no Brasil, com repercussão de alguma significação sobre o movimento artístico. É interessante recordar que também na Europa havia o mesmo fenômeno desde o fim do século XIX., sobretudo, pela ação da Sociedade Teosófica, a qual pertenceu até o fim da sua vida, Piet Mondrian. Assim o genial fundador do concretismo, considerado por muitos campeão de uma arte puramente científica, foi na realidade um entusiasta do budismo e talvez de outras doutrinas orientais.
Essas influências Orientais não afetam as tendências mais fantásticas da arte brasileira, mas contribuem para a incipiente arte mágica, juntando-se às origens africana do Candomblé e da Umbanda.
São particularmente importantes as manifestações da arte erótico-fantástica na pintura e nas artes gráficas brasileiras de hoje. Há também inícios de uma arte mágico-erótica e um pouco de arte psicodélica de tendência erótica. Esse interesse pelos temas eróticos reflete uma das características mais típicas da nossa época.
 
Mario Schenberg
1970